Ética, a cultura e a sociedade
O "mais bonito do mundo" é que as pessoas "não são sempre iguais", não estão "terminadas". O ser humano é "travessia." (Riobaldo em ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas.)[1].
Observar o texto de Leonardo Boff: “a ética e a formação de valores na sociedade” e interagir com os pertinentes apontamentos feitos pelo Prof. Dr. Valério Guilherme Schaper em seu texto: “ética, moral, cultura e sociedade”, nos proporciona uma amplitude em nossa cosmovisão frente a essa temática. Considerar os diferentes aspectos de nossa cultura faz-se necessário observar a seguinte afirmativa desse antropólogo: “[...] presos a uma única cultura, somos não apenas cegos às dos outros, mas míopes em relação à nossa.” (LAPLANTINE, 2007, p. 21), nisso consiste nosso desafio na formação de valores em nossa sociedade; vivemos em uma cultura pluralista, onde o relativismo tem encontrado seu trono, nos desafiando a reinventar nossa construção ética na sociedade hodierna.
Boff, em sua abordagem nos proporciona uma significativa exposição da problemática na vida em sociedade; esse Teólogo nos leva a refletir, trabalhando numa perspectiva avaliativa a nível estrutural. Com isso, nos aponta três distintas características da crise mundial. A primeira dela é a apartação social. Nessa afirmativa podemos perceber uma denúncia bastante relevante, onde a crise social ganha destaque e com bastante coerência versa sobre a importância de resgatar o valor do ser humano, nosso semelhante que tem sido tratado como dessemelhante. Outro ponto abordado é o sistema de trabalho, onde a desumanização tem ganhado espaço diante da ganância de produzir mais, trazendo um alerta em meio à distração com as novas descobertas e implantações tecnológicas, e o repensar sobre a organização social que contemple os empregados, que de alguma maneira são destituídos de seus postos de trabalho. E por último, analisa o abalo ecológico, que tem representado mudanças em diferentes extremidades da terra, considerando que o ecossistema e sua subsistência é um desafio ético, que Boff nos ressalta nesse eixo triplo, que nossa humanidade vive.
Como filósofo,Boff não deixa passar despercebido a tensão entre: a razão e a afetividade, trazendo luz e afirmando a seguinte questão ao nosso pensar:
“Se a razão reprime o sentimento, triunfam a rigidez, a tirania da ordem e a ética utilitária. Se o sentimento dispensa a razão, vigoram o delírio das pulsões e a ética hedonista do puro prazer.” .
Essa argumentação e outras no texto apresentam uma quebra de paradigma em nosso pensamento ocidental; sua postura é corajosa em romper com a fundamentação, que tem regido nossa concepção de mundo, Abrindo espaço para uma nova abordagem sobre a ética, que é listada como a ética do cuidado, da solidariedade e da responsabilidade; resumindo com a seguinte frase: “Responsabilidade, cuidado e solidariedade poderão estabelecer um patamar mínimo para que alcancemos um padrão de comportamento que seja humanitário”. Consequentemente aponta para uma nova maneira de existir, onde a ética uma vez bem equilibrada leva a uma nova estrutura civilizacional, onde o valor do ser humano é redescoberto.
A ética interage com a cultura que está repleta de diversidade, por isso, como assinala Santos[2] em seu livro sobre cultura:
“É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade; isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de ideias; ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social, é um elemento que faz parte das relações sociais no país. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver, cujas razões podem ser estudadas, contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas”. [SANTOS, 1996. p. 19].
Logo, podemos compreender que a moral precisa dar respaldo a esse viver diversificado em cada grupo da sociedade através dos princípios da ética, para que não caia nas “garras” do moralismo, que norteará a prática de sustentabilidade no viver comunitário. Nisso, observar a especificidade contida em cada contexto nos possibilita novas formas de convívio em diferentes culturas.
Uma questão que se apresenta nesse cenário é o da religião. O prof. Schaper, pontua sobre a relação do contexto tradicional e moderno, que entram em conflito em meio às vicissitudes da vida cotidiana, tendo que responder de maneira satisfatória as demandas correntes da atualidade. Com isso, faz-se necessário considerar esses dois aspectos, quando se pensa em ética, cultura e sociedade, pois essas duas realidades divergem em sua maneira de intervir no mundo. O Dr. Schaper, descreve a seguinte fala:
“A religião e a moral tradicional são descartadas, pois a legitimação é interna à própria sociedade: o mito do progresso e a progressiva eliminação dos problemas. A técnica toma o lugar da ética...”
Esse ponto nos leva a perceber como a religião precisa repensar sua abordagem diante do dinamismo do nosso dia a dia. Apontando especificamente para realidade cristã, temos uma estrada longa, em busca de ressaltar uma ética, que seja despida da “folhagem” do moralismo, em direção ao anúncio/denúncia, que visam resgatar o valor do ser humano que a pós-modernidade desconhece.

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