segunda-feira, 30 de abril de 2012

Desafios do cuidado com enlutados na sociedade atual


             
O Dr. Lothar Carlos Hoch[1], elabora uma significativa contribuição sobre os desafios do cuidado com enlutados. Sua abordagem é excelente, pois localiza o pano de fundo da temática no contexto ocidental, mostrando com clareza as formas que os seres humanos estão lidando com a morte e o luto, apontando as nuances do acompanhamento e cuidado no contexto cristão. Dr. Hoch, traz relevante destaque a dinâmica da Bíblia no momento do luto.

Numa explanação do cenário atual, diferentes comportamentos são ressaltados. O primeiro se encontra relacionada à quebra do modelo tradicional referente à morte e ao nascimento. Em um tempo não muito distante, conversar sobre o nascimento era um dilema, sendo ocultado seu sentido real a “todo custo”, valendo até contar estórias mentirosas. Contudo, as novas gerações já conseguem ver o seu nascimento filmado pelos próprios pais, rompendo com os paradigmas antigos; mas outro dilema se apresenta a morte e o luto; esse momento que era vivido por todos do seio da família e vizinhos, passou a ser administrados por entidades especializadas, rompendo assim com o contato direto com o morto, escolhendo preservar os aspectos que neguem a fraqueza e a inerente consequência do viver: a morte. Como confirma essa citação: “Vida e morte são duas faces de uma mesma moeda, que é a existência. Não se pode falar de uma, esquecendo-se da outra” [2]. Tudo isso, leva a uma vida que não percebe a transcendência e de humanos que buscam estrutura-se para viver plenamente essa vida, pois é a única que existe.

Diante dessas transformações em nossa cultura, novos desafios emergem no cuidado com enlutados, onde o choro e a dor são sinônimos de “fraqueza” e “infantilidade”. Nisto cabe pontuar o valor que a Bíblia apresenta quanto a esse contexto de pranto, dores, morte e luto que se traduz em “chorar o seu morto”, ou seja, viver intensamente o luto, pois ele faz parte da existência humana e não só isso, apresenta o interesse de Deus em consolar os enlutados; representando um cenário salutar, onde o homem poder expressar seu luto, pois esta convivência com a realidade e a solidariedade traz cura a sua alma.

O acompanhamento nesse momento faz-se necessário considerar a importância de interação informal junto aos familiares, pois isso representa um ambiente salutar de conselho e confissão. O Dr. Hoch pontua a importância de se observar as fases de luto, que embora não seja rigidamente imóvel, ela representa uma referência nesse contexto. A fase do choque é a primeira etapa que se apresenta no confronto real com a morte, representando os primeiros sentimentos. A fase do controle, num segundo momento representa o lado racional que considera a necessidade de verificar os preparativos para o enterro, tendo seu fim após todo acontecimento fúnebre. Com isso, abre-se espaço para a fase do vazio existencial, que adentra o ser da pessoa enlutada, quando se depara com a noite e o cenário que lembra a ausência do ente querido, sendo essa “fase em que o enlutado mais precisa de apoio de familiares, amigos, vizinhos e da solidariedade e consolo de irmãos e irmãs na fé”. Por último, a fase da readaptação onde o enlutado começa a recuperar o ânimo de começar de novo, de repensar a vida profissional onde seus objetivos de vida são reorganizados trazendo significativas mudanças.

Todas essas fases e implicações representam um norte à tarefa de acompanhamento e cuidado aos enlutados. A manifestação dos sentimentos de luto independente do valor atribuído pela geração atual faz-se necessário, devido à importância de não reprimir o luto, antes, criar meios que esse enlutado pranteie pelo seu morto. Contudo, cabe ampliar esse servir a toda comunidade cristã, que deve apresentar caráter terapêutico. É notório que em diferentes contextos o luto é vivido e isso representa uma diversidade de manifestações nos enlutados, nota-se a necessidade de observar essa afirmativa do autor: “É importante que a pessoa que se propõe a acompanhar enlutados seja capaz de distinguir formas sadias de formas doentias de expressão de luto”. 

Muitos desafios abarcam este cuidado em nossa sociedade. Três dimensões são destacadas: a importância da fé cristã, da Bíblia e da oração como recurso indispensável; uma proposta que não se resumir somente na consolação, mas também na denúncia de “estruturas injustas” e do sacerdócio de todos, resgatando a necessidade de envolver toda comunidade cristã nesse acompanhamento.


Autor: Edson Miranda


[1] Lothar C. Hoch, pastor da IECLB, bacharel em Teologia pelas Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, e Luther Theological Seminary, em Saint Paul, Minnesota, USA. É doutor em Teologia pela Philipps Universität, Marburg/Alemanha. É membro da Society for Intercultural Pastoral Care and Counselling; sócio-fundador da Associação Brasileira de Aconselhamento; consultor da Capes; integrante do comitê de ética em pesquisa do Instituto de Educação e Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre/RS.

[2] Dr. Lothar Carlos Hoch, D'Assumpção, p. 11.

Nenhum comentário:

Postar um comentário