O Dr. Lothar Carlos Hoch[1], elabora uma significativa contribuição sobre os desafios do cuidado
com enlutados. Sua abordagem é
excelente, pois localiza o pano de fundo da temática no contexto ocidental,
mostrando com clareza as formas que os seres humanos estão lidando com a
morte e o luto, apontando as nuances do acompanhamento e cuidado no contexto cristão.
Dr. Hoch, traz relevante destaque
a dinâmica da Bíblia no momento do luto.
Numa explanação do cenário atual,
diferentes comportamentos são ressaltados. O primeiro se encontra relacionada à
quebra do modelo tradicional referente à morte e ao nascimento. Em um tempo não
muito distante, conversar sobre o nascimento era um dilema, sendo ocultado seu
sentido real a “todo custo”, valendo até contar estórias mentirosas. Contudo,
as novas gerações já conseguem ver o seu nascimento filmado pelos próprios
pais, rompendo com os paradigmas antigos; mas outro dilema se apresenta a morte
e o luto; esse momento que era vivido por todos do seio da família e vizinhos,
passou a ser administrados por entidades especializadas, rompendo assim com o
contato direto com o morto, escolhendo preservar os aspectos que neguem a
fraqueza e a inerente consequência do viver: a morte. Como confirma essa
citação: “Vida e morte são duas faces de uma mesma moeda, que é a existência.
Não se pode falar de uma, esquecendo-se da outra” [2]. Tudo isso, leva a uma
vida que não percebe a transcendência e de humanos que buscam estrutura-se para
viver plenamente essa vida, pois é a única que existe.
Diante dessas transformações
em nossa cultura, novos desafios emergem no cuidado com enlutados, onde o choro
e a dor são sinônimos de “fraqueza” e “infantilidade”. Nisto cabe pontuar o
valor que a Bíblia apresenta quanto a esse contexto de pranto, dores, morte e luto
que se traduz em “chorar o seu morto”, ou seja, viver intensamente o luto, pois
ele faz parte da existência humana e não só isso, apresenta o interesse de Deus
em consolar os enlutados; representando um cenário salutar, onde o homem poder
expressar seu luto, pois esta convivência com a realidade e a solidariedade traz
cura a sua alma.
O acompanhamento nesse
momento faz-se necessário considerar a importância de interação informal junto
aos familiares, pois isso representa um ambiente salutar de conselho e
confissão. O Dr. Hoch pontua a
importância de se observar as fases de luto, que embora não seja rigidamente
imóvel, ela representa uma referência nesse contexto. A fase do choque é a
primeira etapa que se apresenta no confronto real com a morte, representando os
primeiros sentimentos. A fase do controle, num segundo momento representa o
lado racional que considera a necessidade de verificar os preparativos para o
enterro, tendo seu fim após todo acontecimento fúnebre. Com isso, abre-se
espaço para a fase do vazio existencial, que adentra o ser da pessoa enlutada,
quando se depara com a noite e o cenário que lembra a ausência do ente querido,
sendo essa “fase em que o enlutado mais precisa de apoio de familiares, amigos,
vizinhos e da solidariedade e consolo de irmãos e irmãs na fé”. Por último, a
fase da readaptação onde o enlutado começa a recuperar o ânimo de começar de
novo, de repensar a vida profissional onde seus objetivos de vida são
reorganizados trazendo significativas mudanças.
Todas essas fases e
implicações representam um norte à tarefa de acompanhamento e cuidado aos
enlutados. A manifestação dos sentimentos de luto independente do valor
atribuído pela geração atual faz-se necessário, devido à importância de não
reprimir o luto, antes, criar meios que esse enlutado pranteie pelo seu morto. Contudo,
cabe ampliar esse servir a toda comunidade cristã, que deve apresentar caráter
terapêutico. É notório que em diferentes contextos o luto é vivido e isso
representa uma diversidade de manifestações nos enlutados, nota-se a
necessidade de observar essa afirmativa do autor: “É importante que a pessoa
que se propõe a acompanhar enlutados seja capaz de distinguir formas sadias de
formas doentias de expressão de luto”.
Muitos desafios abarcam este
cuidado em nossa sociedade. Três dimensões são destacadas: a importância da fé
cristã, da Bíblia e da oração como recurso indispensável; uma proposta que não
se resumir somente na consolação, mas também na denúncia de “estruturas
injustas” e do sacerdócio de todos, resgatando a necessidade de envolver toda
comunidade cristã nesse acompanhamento.
Autor:
Edson Miranda
[1]
Lothar
C. Hoch, pastor da IECLB, bacharel em Teologia pelas Faculdades EST, em São
Leopoldo/RS, e Luther Theological Seminary, em Saint Paul, Minnesota, USA. É
doutor em Teologia pela Philipps Universität, Marburg/Alemanha. É membro da
Society for Intercultural Pastoral Care and Counselling; sócio-fundador da
Associação Brasileira de Aconselhamento; consultor da Capes; integrante do
comitê de ética em pesquisa do Instituto de Educação e Pesquisa do Hospital
Moinhos de Vento de Porto Alegre/RS.

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